Do lado de cá de Guaraíras


O caminho é curto. Logo ali. A 50 km de Natal, ao sul, pela BR-101, com entrada à esquerda no trecho entre São José e Goianinha. Mas em vez do tradicional caminho praiano, um roteiro extenso e por uma natureza quase intocada. A equipe do caderno FIM DE SEMANA realizou um passeio diferente, a jornada de um dia em Georgino Avelino, o menor município do RN, com apenas 26 km de área de extensão. Para chegar ao destino, a viagem foi feita de carro. A trilha a que nos propusemos foi percorrida a pé, de canoa, balsa e lancha. 
Foi uma espécie de reconheci-mento de área para sugerir aos leitores que se permitam - neste feriado - fazer uma visitinha com a família ou amigos ao paraíso quase inexplorado, localizado bem próximo da Capital. Surpreenda-se com cada detalhe da trilha que apresentamos a seguir. O município é banhado pela Lagoa de Guaraíras e esconde um visual exuberante em meio a manguezais, dunas, coqueirais e nichos de mata atlântica.  

A lagoa é o sustento de muitos moradores, que exploram a riqueza proveniente das águas, que tem peixes e mariscos em abundância, e as margens para o comércio. Nesse contexto, fomos apresentados inicialmente à dona Jacira Januário, do bar e restaurante Pontal de Guaraíras. Ela nos serviu um petisco de camarões graúdos, com macaxeira, desculpando-se de que estava sem ingredientes para a salada, porque fora pega de surpresa. 

Normalmente, a comerciante abre o bar bem cedinho e atende até o último cliente. Caso algum grupo planeje ir comer em seu estabelecimento, ela mantém o telefone sempre ligado e trabalha sob encomenda. À exemplo dos colegas comerciantes redondeza, ela também não recebe clientes com regularidade. No cardápio, além do camarão, vendido a R$ 15 a porção, ela serve caldos que variam entre R$ 3,50 a R$ 5 (dependendo do tamanho), de sururu, ostra e liliu (um marisco típico da região). 

Os pratos de peixe são negociados, variando de acordo com o tamanho do pescado. "Já servi um robalo grande, que foi dividido para seis pessoas, a R$ 70", explica. O preço do almoço é a partir de R$ 8 por pessoa. "As pessoas sempre elogiam que a cerveja aqui é muito gelada", diz.   

Quando o cliente se senta à mesa de dona Jacira, também pode usufruir da pesca "ao vivo" de Adailma Alexandre de Almeida, que passa a maior parte do seu tempo na lagoa, pescando ostras que são servidas aos turistas. Quando os visitantes chegam, se ela não estiver no local, alguém manda chamá-la em casa ou via celular. Aos domingos, a pescadora marca presença com o marido, que vende bebidas, e já chegou a vender 150 ostras em dias de fluxo intenso.

Diante da equipe, ela mostrou toda sua habilidade de quem pesca desde os 9 anos de idade. Retirou ostras da lagoa, abriu-as, serviu todas numa bandeja, que foram degustadas com sal, limão, azeite e cominho. Na ocasião, ainda era um pouco cedo e ela perguntou se havia alguém em jejum, porque se trata de um alimento muito forte, para o qual recomendou cautela. Foi ela quem atravessou o grupo à outra margem da lagoa, remando uma pequena embarcação de madeira.  

A canoa é o meio de trans-porte de muitos moradores, que a utilizam para realizar seus diversos ofícios. O ar bucólico da paisagem nos remete realmente ao passado, aos primeiros moradores da região, os indígenas.  

Trilha até praia de Marlembar: beleza refletida em espelho d'água

Pouca gente conhece a trilha que começa na Lagoa de Guaraíras e vai até Marlembar (única praia de Georgino Avelino), que se comunica com Tibau do Sul pela balsa. Cerca de 3 km percorridos a pé, com o objetivo de alcançar a paradisíaca praia. O objetivo da trilha é caminhar sem medo de ser feliz, apreciando a paisagem - enquanto ainda está praticamente intacta, porque a área pertence a um grupo francês e não se sabe até quando permanecerá acessível à população. 

Segundo o músico e ativista ambiental Leonardo Pinheiro, que acompanhou a equipe de reportagem na trilha, juntamente com o guia-mirim Naelson Germano, o Foguinho, existe um acordo entre os proprietário e o Ministério Público, estabelecido em audiência pública, para que o povo continue a usar a trilha como sempre fez. E claro, isso inclui os turistas.   

No meio do caminho, os trilheiros se deparam com cajueiros, araçazeiros, gravatazeiros e outras árvores nativas dos  tabuleiros costeiros de mata atlântica. As árvores oferecem frutos, cada qual em sua época, além de proporcionarem sombra para quem precisa descansar o trajeto. O espetáculo da natureza continua, com aves de vários tipos que sobrevoam ou pousam às margens da lagoa: carcarás, maçarico do bico torto, garças, marrecos e galinhas d'águas. A paisagem muda. Em um certo ponto, o solo é arenoso. Sinal de que a praia está próxima. 

Subimos uma duna e olhamos para trás. Linda vista da lagoa, que forma um imenso espelho d'água a se perder de vista, e da cidade de Georgino, que nos observa do alto, com suas casinhas coloridas. No entanto, a imagem de alguns viveiros de camarão - ao longe - não é muito agradável. Mas, fazer o quê: o poder público durante muito tempo foi - e continua sendo - permissivo com os criadores, incentivando a produção em cativeiro. Infelizmente, não há muita fiscalização e a atividade acabou se tornando responsável pela degradação de boa parte dos manguezais potiguares. 

Mais um pouco de caminhada, dentre subidas e descidas nas dunas, os aventureiros alcançam o objetivo. Mar à vista, um pouco à esquerda. A linda praia de Marlembar é um convite ao banho. Dá vontade de brincar feito criança: o último a chegar é a mulher do padre! A reportagem ainda tinha muito o que ver e mostrar e e não caiu naquela água límpida, mas foi difícil resistir à tentação. 
Fonte: TN Online

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