Canoas encontradas na Lagoa de Extremoz serão investigadas por Iphan

Embarcações teriam origem indígena ou no período colonial. Foto: José Aldenir

Protegidas por cercados, duas canoas encontradas por um pescador na Lagoa de Extremoz estão postadas no jardim da Fundação de Cultura Aldeia do Guajiru, no mesmo município vizinho à capital potiguar. A menor mede 3,97m. A maior, 5,40m. Ambas aguardam um diagnóstico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para revelar se a origem é indígena ou do período colonial. Da mesma forma, uma série de objetos, como pedaços de cerâmica, um remo e um conjunto de arco e flecha. Na manhã desta sexta-feira (19), a reportagem d’O Jornal de Hoje esteve na localidade, que é emoldurada pelas ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, construída por jesuítas no século 16 e onde foi batizado o índio Poti, ou Antonio Felipe Camarão.
Em meio ao cenário histórico-cultural subaproveitado como destino turístico potiguar, palco de batalhas entre nativos, portugueses e holandeses, com túneis subterrâneos que serviam de refúgio para catequizadores de índios, a Aldeia do Guajiru recebeu as embarcações leves com a missão de protegê-las, enquanto um estudo é realizado para definir a época e os donos primitivos. A primeira chegou em 2011. A segunda, há cerca de duas semanas. Presidente da Fundação, Leda Medeiros de França comemora o achado e garante tomar cuidados para mantê-las seguras. “Não posso falar nada a respeito da origem delas, porque não temos essa informação do Iphan. Ninguém vai confirmar uma coisa importante dessa sem ter certeza, né? Mas o pessoal do Iphan disse que é algo significativo, como muita coisa que existe por aqui [imediações da Lagoa de Extremoz]. Temos um carinho grande por elas duas e mantemos a área limpa e segura”.
Mais que curiosidade com as duas embarcações, ela sente que a população tem necessidade de saber detalhes e adquirir novos conhecimentos sobre o passado do município. “Tenho recebido muitas ligações de escolas particulares querendo visitar a Fundação por causa das canoas. Eu digo que podem vir, tirar fotos, mas que ainda não sabemos nada de concreto, nada de oficial sobre elas. Isso só será dito por um órgão competente, com capacidade de analisar e dizer quando foram feitas e por quem”.
Com nove funcionários e cursos de dança folclórica, artesanato e gastronomia indígena, a Aldeia do Guajiru é uma entidade mantida pela Prefeitura de Extremoz como paliativo para a falta de uma política mais abrangente com a riqueza arquitetônica e histórica do Estado. As canoas, se confirmadas como tupis ou paiacus, as duas principais etnias que habitaram a região, irão para o Museu Câmara Cascudo (parte dos objetos encontrados já se encontra na instituição). O fotógrafo Canindé Santos, morador da cidade e um dos cidadãos atuantes na valorização do legado indígena, alerta para o assédio que as peças recebem de supostos colecionadores e a demora do Iphan em estudar a madeira utilizada.
“Teve uma vereadora daqui [Extremoz] que botou R$ 1 mil para levar uma canoa. Ela queria decorar a casa. Seria bom que essa área toda fosse realmente tombada. Aqui tem cerâmica na beira da Lagoa, que está aparecendo agora com a seca. E era bom que as canoas fossem logo estudadas e saíssem daqui. O pescador encontrou uma terceira, a maior delas. Mas sumiu. Ninguém sabe para onde ela foi. Aqui já acharam imagens de santos barrocos, entregaram para a Igreja, mas também sumiu. É uma situação que merece atenção do poder público”, diz Canindé, que acredita na viabilidade de um parque ecológico no lugar onde hoje funciona apenas a Fundação Aldeia Guajiru.
O projeto existe, segundo Leda Medeiros. Empolgada com o Auto de São Miguel, encenação teatral montada no mês de setembro, ela destaca que a inserção de Extremoz no Plano Nacional da Cultura adiantaria o processo. “É um projeto grandioso, mas que requer tempo e investimento. A cidade é pobre, não tem como fazer tudo de uma hora para a outra. Mas sinto o prefeito empenhado em tirar do papel”. Ao lado das ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo, destruída ao longo do tempo, segundo uma lenda extremozense, após sonhos de um morador que denunciavam que a construção tinha usado ouro nos alicerces.  Desde então, marretas e martelos desmontaram um acervo incalculável.
Para a historiadora e chefe substituta da divisão técnica do Iphan, Ivanirce Gomes, boas notícias surgirão das pesquisas feitas nas canoas. Após a visita de técnicos na última segunda-feira (15), as toras de madeira talhadas como meio de transporte (uma delas está queimada) serão investigadas como item arqueológico relevante. “Estamos no início do trabalho. Estivemos in loco e tiramos fotografias. Ainda não podemos afirmar de que período ou cultura elas são. É preciso análise através de amostras da madeira. Só depois disso podemos dar um veredito. Mas com certeza são peças importantes, que devem ser protegidas”.

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