Alexis Peixoto - repórter
Infelizmente, Natal ainda tem uma cabeça muito provinciana para as artes. O desabafo, em tom resignado e triste, é do gravurista Rossini Quintas Perez, potiguar de Macaíba radicado no Rio de Janeiro há mais de 60 anos. O artista, tido como referência mundial na arte da gravura, esteve em Natal em novembro do ano passado para discutir a doação de parte de seu acervo à Fundação José Augusto. Quatro meses depois, o projeto foi riscado e as obras de Perez que viriam para o Rio Grande do Norte foram doadas à Pinacoteca de São Paulo. O motivo da mudança de planos: falta estrutura na Pinacoteca do Estado para acolher adequadamente suas gravuras.
O atual diretor da Pinacoteca, Franklin Jorge, é sucinto ao resumir o estado atual da reserva técnica (onde o museu guarda seu acervo quando não está exposto): A situação é praticamente a mesma do ano passado. Os problemas estão sendo resolvidos com a morosidade que caracteriza a burocracia do governo, afirma, sincero.
Amigo de longa data de Rossini Perez, Franklin Jorge acompanhou o artista durante a visita em novembro e juntos viram todos os problemas que impediram a vinda do acervo do gravurista para a Pinacoteca. É uma perda incalculável para o Estado e para a Pinacoteca, diz, sobre a ida das obras de Perez para São Paulo. Rossini Perez foi o principal divulgador da gravura brasileira no exterior, é um artista respeitado no mundo todo. Receber o acervo dele foi uma honra que o Rio Grande do Norte perdeu.
Na manhã de ontem, a reportagem do VIVER visitou a reserva técnica da Pinacoteca do Estado. O cenário encontrado bate com o descrito por Rossini Perez: em um cômodo escuro e abafado, dezenas de obras estão armazenadas de forma descuidada, sem qualquer indício de organização ou catalogação. A quantidade de peças só se equipara à variedade: são pinturas, desenhos, esculturas, objetos e tapeçaria dos mais variados estilos.
Aos problemas de acomodação, Franklin acrescenta outros. O diretor informou que os corredores da Pinacoteca estão infestados de ratos, baratas e cupins; parte do acervo carece de histórico de doação ou atestado de compra e aquisição; enquanto outras peças simplesmente sumiram. Dentre os desparecidos estão dez obras da pintora primitivista Maria do Santíssimo e um raríssimo Torso em Terracota, de Vasco Prado esse último doado pelo próprio Franklin Jorge, quando participou do processo de criação da Pinacoteca e da Escola de Gravura Rossini Quintas Perez, no início dos anos 1980.
Está na hora da Pinacoteca começar de verdade
Franklin é tão ciente dos problemas da Pinacoteca quanto das dificuldades em resolvê-los. Segundo ele, os obstáculos são numerosos e complexos e vão do orçamento curto à falta de pessoal qualificado. Existe muita burocracia no caminho. Já mandamos vários relatórios à Isaura Rosado (secretária extraordinária de Cultura) enumerando os problemas, mas até agora continuamos de mãos atadas, diz.
Uma esperança pode vir de uma emenda parlamentar apresentada na Câmara Federal, que vai destiar recursos da ordem de R$ 20 milhões para promover melhorias destinadas aos museus do Estado o que inclui, além da Pinacoteca, o Forte dos Reis Magos e o Memorial Câmara Cascudo. Mas como até agora não há previsão para a chegada dos recursos, só resta esperar.
Desses R$ 20 milhões, o que estou sabendo é que apenas R$ 2 milhões virão para a Pinacoteca. Não dá nem para começar, diz Franklin. Nesses 30 anos em que existe, a Pinacoteca só mudou de endereço saiu da sede da FJA e veio para o Palácio do Governo. Está na hora de começar de verdade, sentencia. tempo.
Memórias de Pedro Grilo
Problemas à parte, a Pinacoteca do Estado tem programação alinhada para os próximos meses. Durante o mês de abril, o artista plástico e poeta Pedro Grilo expõe 85 telas que retratam cenas e espaços da Natal de antigamente, imagens retidas em sua memória de infância na mostra Grilo Borratela.
Durante os meses de maio e junho, estão programadas nove exposições individuais de artistas selecionados pelo edital de ocupação da FJA. As mostras variam de exposições fotográficas à instalações de artes plásticas.
Decepção e desistência
O gravurista Rossini Perez disse por telefone ao VIVER que quando visitou Natal, no final do ano passado, pensou em aproveitar a viagem para realizar uma exposição retrospectiva de sua obra a primeira no RN em mais de 30 anos. A ideia original era que, após a exposição, parte das peças ficariam com a Pinacoteca.
Porém, preocupado com o destino que suas obras teriam, Perez pediu para conhecer as instalações do museu. Chegando lá, ficou horrorizado com o que viu na reserva técnica. Foi uma cena terrível. A sala estava fechada, sem ventilação alguma, e as obras mal acomodadas. Parecia um quarto de entulho, lembrou. Decepcionado, mas disposto a levar a exposição adiante, Rossini ainda tentou reorganizar o espaço junto com a diretoria da Pinacoteca (na época, comandada por Vandeci de Holanda). Cansado de esperar, o gravurista resolveu levar seu acervo para a Pinacoteca de São Paulo. Foram doadas cerca de 50 obras de diversos períodos da carreira do artista, entre gravuras, matrizes e fotografias, que correspondem à sua produção mais recente. Ainda chateado com a situação, Perez diz não considerar mais a possibilidade de doar obras suas ao acervo potiguar. Não posso fazer uma doação se não há local adequado para guardar as obras. É triste e me deixa magoado, mas que se pode fazer?, questiona.
da TN
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