
Tradição desaparecida desde 1978, a queima do Boi de Reis é resgatada em festividade em São Gonçalo do Amarante, no evento promovido pelo Ponto de Cultura BoiVivo
A tradição do Boi de Reis tal qual se conhece hoje, deixou pelo caminho rotinas que acabaram caindo no esquecimento dos mais antigos e nem sequer foram apresentadas às novas gerações de brincantes. Detalhes impregnados de simbologia, como a queima do Boi, deixaram de fazer parte das performances ainda no final da década de 1970 por motivos tão diversos quanto contestáveis – principalmente pelos mais céticos. O folguedo será revisitado em sua plenitude durante a 3ª Festa de Reis Boivivo, que acontece de hoje até a próxima terça-feira (6) em São Gonçalo do Amarante. “A queima do Boi que vamos fazer no Dia de Reis (6 de janeiro, às 18h) aprendi com meus avós, que aprenderam com os avós deles... Não sei dizer nem quando nem de onde surgiu essa tradição, só sei que faz muito tempo”, disse Mestre Elias Baraúnas, do Boi Espaço Surubim.
Mestre Elias, que atualmente mora em Serra Caiada, queimou seu derradeiro Boi em 1978: “As pessoas deixaram de queimar por medo, pois quando as varas da armação que segura o Boi estralam é sinal que alguém do grupo vai morrer. Aconteceu comigo na época, o Boi deu dois estralos com o fogo e morreram dois do meu grupo. Sei que todo mundo vai morrer um dia, mas ficou essa superstição”, explicou José Izidro de Souza, o Mestre Elias Baraúnas, do alto de seus 53 anos de vida, 41 deles envolvido com a brincadeira. É ele quem irá conduzir a queima do Boi.
A queima do Boi representa renovação do grupo e do próprio Boi (objeto) em si, a chegada de um novo ano, e como a tradição surgiu no campo, originalmente praticada por agricultores, o auto do Boi também está ligado ao ciclo da terra, cultivo e colheita.
Além da versão sobrenatural para explicar a queima, o fotógrafo Lenilton Lima, do Ponto de Cultura Boivivo que promove o evento, conta uma outra. Ele lembrou que no final dos anos 1950, durante a governo do prefeito Djalma Maranhão (1915-1971), o gestor municipal, reconhecido entusiasta da cultura popular, acompanhado do poeta e pesquisador Deífilo Gurgel (1926-2012), pediu aos mestres que não queimassem mais o Boi. “Os mais antigo contam que Djalma Maranhão dizia que era difícil de fazer. Só que acompanhei a feitura do Boi e é rápido, difícil é achar uma cabeça de boi do jeito que eles querem. Então pode ser que o prefeito queria evitar que os grupos fossem pedir ajuda nesse período do ano”, arrisca.
Mestre Dedé Veríssimo, responsável pelo Boi Calemba Pintadinho de São Gonçalo do Amarante, cuja sede será endereço para a 3ª Festa de Reis Boivivo, também acredita na lenda que ronda a queima do Boi. “Coincidência ou não, Mestre Pedro Guajiru morreu (no início dos anos 1990) depois que a vara central do Boi que ele queimava estralou”, disse Kleber de Sousa, 35, que faz o personagem Mateu do Boi de Mestre Dedé. “Depois disso ninguém mais queimou”.
Os mestres Elias Baraúnas e Pedro Guajiru eram discípulos do Mestre Severino Caboclo de Laranjeiras do Abdias – foi Severino quem deixou como herança o grupo Boi Calemba Pintadinho para se dedicar a outro grupo, o Fandango. “Mestre Severino Caboclo foi o melhor mestre do RN, devia ser o melhor do Brasil. Nenhum sabia fazer o que ele sabia, tinha muito conhecimento, era muito aplaudido”, valoriza Elias.
A 3ª Festa de Reis Boivivo está sendo realizada sem apoio de nenhuma instituição pública, o evento foi viabilizado com o ‘troco’ que o Ponto de Cultura Boivivo conseguiu guardar da viagem feita para o Rio Grande do Sul durante o período da Copa do Mundo realizada com recursos de edital promovido pelo Ministério da Cultura.
PROGRAMAÇÃO
Entre as atrações confirmadas estão o trio de forro pé de serra Preá Com Melancia, banda Pife Perfumado (Monteiro/PB), Messias Bonequeiro, Pastoril Dona Joaquina, Boi Calemba Pintadinho, Forró de Reis, Raul do Mamulengo, feira de artesanato, Folia de Rua Potiguar, Coco de Roda do Mestre Severino e forró Será o Benedito?.
A queima do Boi representa renovação do grupo e do próprio Boi (objeto) em si, a chegada de um novo ano, e como a tradição surgiu no campo, originalmente praticada por agricultores, o auto do Boi também está ligado ao ciclo da terra, cultivo e colheita.
Além da versão sobrenatural para explicar a queima, o fotógrafo Lenilton Lima, do Ponto de Cultura Boivivo que promove o evento, conta uma outra. Ele lembrou que no final dos anos 1950, durante a governo do prefeito Djalma Maranhão (1915-1971), o gestor municipal, reconhecido entusiasta da cultura popular, acompanhado do poeta e pesquisador Deífilo Gurgel (1926-2012), pediu aos mestres que não queimassem mais o Boi. “Os mais antigo contam que Djalma Maranhão dizia que era difícil de fazer. Só que acompanhei a feitura do Boi e é rápido, difícil é achar uma cabeça de boi do jeito que eles querem. Então pode ser que o prefeito queria evitar que os grupos fossem pedir ajuda nesse período do ano”, arrisca.
Mestre Dedé Veríssimo, responsável pelo Boi Calemba Pintadinho de São Gonçalo do Amarante, cuja sede será endereço para a 3ª Festa de Reis Boivivo, também acredita na lenda que ronda a queima do Boi. “Coincidência ou não, Mestre Pedro Guajiru morreu (no início dos anos 1990) depois que a vara central do Boi que ele queimava estralou”, disse Kleber de Sousa, 35, que faz o personagem Mateu do Boi de Mestre Dedé. “Depois disso ninguém mais queimou”.
Os mestres Elias Baraúnas e Pedro Guajiru eram discípulos do Mestre Severino Caboclo de Laranjeiras do Abdias – foi Severino quem deixou como herança o grupo Boi Calemba Pintadinho para se dedicar a outro grupo, o Fandango. “Mestre Severino Caboclo foi o melhor mestre do RN, devia ser o melhor do Brasil. Nenhum sabia fazer o que ele sabia, tinha muito conhecimento, era muito aplaudido”, valoriza Elias.
A 3ª Festa de Reis Boivivo está sendo realizada sem apoio de nenhuma instituição pública, o evento foi viabilizado com o ‘troco’ que o Ponto de Cultura Boivivo conseguiu guardar da viagem feita para o Rio Grande do Sul durante o período da Copa do Mundo realizada com recursos de edital promovido pelo Ministério da Cultura.
PROGRAMAÇÃO
Entre as atrações confirmadas estão o trio de forro pé de serra Preá Com Melancia, banda Pife Perfumado (Monteiro/PB), Messias Bonequeiro, Pastoril Dona Joaquina, Boi Calemba Pintadinho, Forró de Reis, Raul do Mamulengo, feira de artesanato, Folia de Rua Potiguar, Coco de Roda do Mestre Severino e forró Será o Benedito?.
da TN
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