Vicente Estevam
Repórter
Ex-jogador do ABC e autor do gol que deu ao clube a conquista do título estadual de 1993, Sérgio China retorna ao alvinegro disposto a conquistar a confiança dos torcedores também no banco de reservas, agora como comandante da equipe. Ele garante que se preparou para desempenhar a nova função dentro do futebol, chega fazendo questão de dizer que não é nenhum salvador da pátria, mas está disposto a deixar um bom trabalho no clube para temporada de 2016. O fato de pegar a equipe numa situação das mais delicadas, não é motivo de tranquilidade e também, segundo o novo treinador, não tira dele a parcela de responsabilidade pelo que vier a ocorrer dentro da série B. Acompanhe agora os principais trechos da entrevista que o treinador alvinegro concedeu à TRIBUNA do NORTE.
Como foi esse contato para você que é ídolo da torcida assumir o ABC num momento tão delicado?
O contato foi feito através de Rogério Marinho, surgiu a oportunidade e mesmo com acerto verbal já realizado com o Salgueiro, para permanecer no clube em 2016, decidi aceitar o convite do ABC. Hélio dos Anjos resolveu deixar o clube e o que facilitou foi a minha vontade de querer trabalhar num clube com a estrutura que tem o ABC hoje, totalmente diferente daquele que encontrei quando vim atuar aqui em 1993. Infelizmente o momento não é tão bom, mas enquanto a matemática não tiver sacramentado o futuro, continuaremos tentando buscar os nossos objetivos dentro da série B.
Geralmente quem é ídolo num clube como jogador rejeitar voltar a ele como técnico. Você chegou a ter esse tipo de receio?
Em nenhum momento tive receio de aceitar o convite do ABC. Eu penso positivamente, me passou pela cabeça sim o ano de 1993 quando vim como jogador e numa situação igualmente difícil. Lembro que na época o time tinha perdido o primeiro turno e eu cheguei no meio do segundo, marquei alguns gols importantes, conquistamos vaga para final e também marquei gols no clássico contra o América tanto no jogo como na prorrogação e acabamos campeões. Assim como todos os treinadores que já passaram por aqui, eu chego com a intenção de fazer coisas boas, conquistar bons resultados. Nada na vida ocorre por acaso, se apareceu o momento, nós temos de agarrar as oportunidades. O cavalo selado não costuma passar duas vezes pela sua frente, então é bom você agarrar logo. Agradeço a aceitação da torcida pelo meu nome e espero contribuir da melhor forma possível.
Com o time praticamente com futuro definido na série B, você se sente confortável no ABC. Uma vez que a culpa de nada aqui será sua?
Eu não me sinto confortável, acho isso ruim: o fato de uma pessoa poder se sentir confortável num clube por ter chegado e já ter encontrado uma situação negativa. Eu gostaria de chegar aqui numa forma completamente diferente, com o treinador tendo saído para uma situação bem melhor devido ao excelente trabalho realizado aqui. O que ocorrer com o ABC eu também vou me sentir responsável, quando assumi, embora com chances reduzidas, a equipe ainda não estava com a situação definida e vem dai a minha responsabilidade. Eu não estou tranquilo, mas estou com um nível de confiança grande, justamente por causa dessa boa aceitação da torcida em relação ao meu nome para comandar o clube.
Você é o sexto treinador do clube na temporada, quinto só no Brasileirão. Isso demonstra que o problema do ABC é de elenco, ou não se pode encarar dessa forma?
É difícil falar sobre qual foi o problema do ABC, uma vez que estou chegando agora. É lógico que existiu dificuldade, erros aconteceram durante todo o processo. Não é apenas o fato do clube estar na zona de rebaixamento, as vezes isso pode ocorrer. São situações que ocorrem que mudam toda uma estratégia de trabalho e também o planejamento. Neste caso só quem pode falar é quem está aqui há mais tempo.
Essa constante troca de técnicos seria um sinal?
Os atletas que estão no grupo desde o início da temporada, certamente, enfrentam dificuldades. Cada treinador novo que chega é uma metodologia nova de trabalho, pensamento diferente em relação a equipe. Eu mesmo costumo realizar muito trabalho lúdico antes dos jogos, crio situações para não deixar os atletas perderem o foco e, as vezes, aquele que era titular, se sentia confortável, hoje não se sente mais por que eu não deixo, crio o desconforto por considerar importante para que todo o grupo trabalhe na mesma intensidade o tempo todo, pois eles sabem que a qualquer momento podem entrar na equipe ou sair dela.
Como você encara essa constante troca de técnicos, já que foi atleta e sabe como as coisas funcionam dentro de campo?
Lógico que não é boa. O importante no futebol é o trabalho de continuidade. Eu tive uma situação de pressão assim que cheguei ao Salgueiro, quando os resultados iniciais não foram muito bons, a imprensa fez pressão, a torcida pediu minha saída, mas a diretoria bancou e acabamos com o vice-campeonato e eu eleito o melhor técnico do Campeonato Pernambucano. Isso é uma situação que mostra o que a diretoria traçou para sua equipe, o planejamento que ela pretende realizar durante a temporada.
A média de permanência de um técnico no ABC na temporada foi de nove partidas, você sabia disso quando aceitou o convite?
Nenhum dirigente vai dizer isso na hora de contratar um treinador, isso não se conversa. Tem de saber qual o motivo de tantas trocas, muitas vezes, como no caso de Hélio dos Anjos, ele pode achar que não dá para continuar com trabalho e pede para sair. No Brasil é preciso que mudemos a nossa cultura. Não se pode achar normal a pessoa querer tirar certos tipos de vantagens e a gente querer colocar a culpa disso na nossa cultura. Fazer a coisa errada é a nossa cultura? Não se pode utilizar isso para tudo e o mesmo ocorre no futebol, existe uma espécie de ciranda entre dirigente, imprensa e torcida e quando os resultados não são satisfatórios é realizada logo uma campanha para se trocar de técnico. Nós temos que começar a privilegiar o planejamento, essa constante troca de treinadores não faz bem ao futebol. Marcelo Oliveira que foi bicampeão pelo Cruzeiro, perdeu um jogo essa semana e foi chamado de burro no Palmeiras, a torcida pediu sua saída. Como pode ser isso? Os momentos de cada clube mudam a cada rodada, casos de Fluminense e Palmeiras.
Como atleta você teve a oportunidade de atuar na Europa. Hoje você é treinador, estudou e quero saber se deu para notar alguma evolução no futebol brasileiro?
A evolução está existindo na parte de metodologia de treinamento, os profissionais da preparação física juntamente com os treinadores estão evoluindo muito também, se capacitando, buscando cursos. Só que a nossa cultura vem acabando com tudo isso, temos de acabar com essa coisa de demitir técnicos a cada quatro ou cinco derrotas. Não adianta querer mirar naquilo que ocorre na Espanha ou na Alemanha com Guardiola se aqui a nossa condicionante é completamente diferente. Lá o pessoal aceita a metodologia por que gosta do jogo bem jogado e não são uns resultados negativos que vão fazer eles mudarem a filosofia. Uma vitória por 5 a 4 na Europa é comemorada, aqui é criticada. A imprensa tem de mudar o pensamento, os dirigentes e os torcedores também. Ninguém aceita a implantação de uma coisa nova, se os resultados iniciais não forem os esperados. A questão do rodizio que Osório tentou implantar no São Paulo e que já ocorre pelo mundo, não vingou. Aqui as coisas são difíceis.
Quem é o Sérgio China que chegou ao ABC? O ex-jogador que se tornou treinador ou um profissional que estudou e se preparou para desempenhar uma nova função no futebol?
O ex-atleta que depois que resolveu continuar no futebol assumindo outra função resolveu estudar e adquirir conhecimento para isso. Ainda no meu tempo de atleta concluí o curso de Educação Física. Em Portugal tive a oportunidade de fazer um curso de treinador nível um, antes de voltar ao Brasil. Fiz mais alguns curso aqui também, com especialização em futebol. Enfim, me sinto preparado para desempenhar a carreira de técnico.
da TN
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