Memorial para obra de Paulo Freire

O Memorial Paulo Freire ficará no campus da Ufersa e está orçado em R$ 3 milhões
Vinícius Menna - repórter
Em evento realizado ontem no campus de Angicos da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa),  Governo do RN e instituições parceiras assinaram a ordem de serviço para construção do Memorial Paulo Freire: Museu e Centro de Formação. Também foi lançado na oportunidade o Pacto Paulo Freire pela Educação de Jovens e Adultos, que visa à criação de políticas públicas para a universalização de uma educação cidadã. As ações são alusivas ao cinquentenário da experiência de educação de jovens e adultos desenvolvida pelo educador Paulo Freire no município, conhecida como ‘As 40 Horas de Angicos’, implantadas no governo de Aluízio Alves.
O Memorial Paulo Freire ficará dentro do campus da Ufersa.  Orçado em mais de R$ 3 milhões, o projeto terá duas frentes: uma relacionada ao resgate da memória das ações de Paulo Freire na cidade e outra voltada ao ensino, pesquisa e extensão.

O Museu contará com um acervo com doações da UFRN, UERN, UFPB e UFPE, além do Instituto Paulo Freire. Durante o evento, um busto do educador foi doado pela Ufersa para o futuro memorial.

De acordo com o diretor do campus de Angicos da Ufersa, Joselito Cavalcanti, o Memorial Paulo Freire também vai dar apoio à pesquisa da pedagogia freiriana, por meio do curso de Licenciatura em Pedagogia. Durante o evento, o projeto do curso foi repassado ao coordenador nacional dos 50 Anos de Paulo Freire em Angicos, Francisco das Chagas Fernandes, que representou o Ministério da Educação (MEC) no evento. “Já temos assegurados recursos da ordem de R$ 1 milhão e 200 mil, provenientes do Ministério da Educação para a primeira etapa do projeto. Agora, com o projeto pedagógico do curso encaminhado, aguardaremos o aval do MEC para capacitar professores com mestrado e doutorado na adaptação de um curso de Pedagogia dentro do método freiriano”, afirmou Joselito Cavalncanti. O curso prevê a formação de cinquenta alunos por semestre, com duração de quatro anos.

Pacto

Diversas instituições de ensino e governamentais assinaram o Pacto Paulo Freire pela Educação de Jovens e Adultos. O documento foi assinado pela secretária estadual de Educação, Betânia Ramalho, com representantes das Universidades, do Governo Federal e do Instituto Paulo Freire.

O pacto tem o objetivo de selar o compromisso para a redefinição das políticas públicas para a alfabetização de jovens e adultos no Brasil. Para o coordenador nacional dos 50 Anos de Paulo Freire em Angicos, Francisco das Chagas Fernandes, “este é o principal legado das comemorações dos 50 anos”.

Segundo a secretária Betânia Ramalho, a visão freiriana de conscientizar, politizar o homem e torná-lo um cidadão pleno por meio da alfabetização pela retomada de um novo programa de alfabetização, que hoje não é somente voltado para o idoso e para adultos, mas também para os jovens. 

“A educação deve agregar a formação para o trabalho, para a tecnologia e também para a cidadania, principalmente nas camadas mais necessitadas. À luz do que Freire tanto nos orientou, queremos retomar um projeto de alfabetização”, disse Betânia Ramalho.

Educador é lembrado com emoção 

O educador pernambucano Paulo Freire foi relembrado com muito emoção pelos presentes em todos os discursos. O depoimento mais marcante ficou por conta do filho dele, Lutgardes Costa Freire, que falou da emoção de vir à terra onde o pai se consolidou com uma figura tão importante na construção de uma educação cidadã e libertadora.

“Meu pai sempre disse que não queria ser venerado, e sim reinventado. Acho que ele ficaria muito feliz ao ver tantas pessoas reunidas para dar continuidade ao trabalho dele. Eu posso sentir a presença dele aqui, mesmo depois de 50 anos”, disse.

O ex-coordenador de Círculo de Cultura das 40 Horas de Angicos, Marcos Guerra, descreveu Paulo Freire como um homem simples, de diálogo, humilde e com uma sabedoria extraordinária. “Ele é o exemplo de um educador que convencia pelo diálogo. Ele me ensinou a aprender”, contou.

Representando o Instituto Paulo Freire no evento, Moacir Gadote relembrou a vinda do educador a Angicos, em 1993, e ressaltou a importância do pacto celebrado ontem para um país livre do analfabetismo, como ele almejava. “O sonho de Paulo Freire ainda não foi realizado, mas esta iniciativa é um passo importante nesse sentido”.

O projeto na memória de quem participou

A professora Maria Eneide de Araújo Melo, de 56 anos, vivenciou as 40 horas de Angicos. Na época, ela tinha seis anos e levava o pai, Severino, para acompanhar as aulas. Ela explica que a experiência de 1963 foi decisiva para que se tornasse uma educadora.

“Eu acompanhava meu pai nas aulas. Me lembro até hoje da professora Valquíria, que ensinava meu pai. Quando meu pai não podia assistir a aula porque tinha que sair para trabalhar, e prestava atenção por ele ensinava o que ele tinha perdido quando chegava em casa”, relatou Maria Eneide. 

Ela conta que os monitores passaram nas casas da cidade, adquirindo o universo vocabular da região que seria utilizado durante as aulas. “Era mais fácil de aprender porque as palavras faziam parte da nossa realidade”, comentou Maria Eneide.

De acordo com a professora, os registros que tinha da época foram todos queimados: os pais dela tiveram medo de serem perseguidos pela ditadura caso algum documento caísse nas mãos dos militares.
da TN

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