Gabriela Freire - Repórter
A natureza da atividade da carcinicultura volta a ser debatida no Rio Grande do Norte. O motivo, dessa vez, é a proposta da Secretaria de Agricultura e Pesca do Estado (Sape) de reconhecer a criação de camarão como atividade agrossilvipastoril em todo o estado, ou seja, uma prática que permite cultivar árvores em conjunto com culturas agrícolas com ou sem criação de animais. Se aprovada, a reclassificação deverá permitir que fazendas de criação de camarão já instaladas em mangues tenham a operação regularizada. Essa possibilidade não é vista com bons olhos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Francisco Nunes da Silva
Fazendas de criação de camarão já instaladas em mangues podem ter a operação regularizada
Fazendas de criação de camarão já instaladas em mangues podem ter a operação regularizada
A proposta deverá ser votada, em forma de instrução normativa, na próxima terça-feira (9), às 9h, durante reunião do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conema), no prédio do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema).
O Ibama não concorda com essa reclassificação e chama a atenção para as consequências que essa mudança pode trazer ao meio ambiente. O Código Florestal de 2012 deixa bem claro que as áreas de mangue não podem ser ocupadas pois são áreas de preservação permanente, destaca o coordenador de gabinete Luiz Eduardo Bonilha. As únicas exceções contemplam a ocupação por empreendimentos de utilidade pública, obra de interesse social reconhecido e atividades da cultura agrossilvipastoril consolidadas até o ano de 2008, explica.
Segundo análise técnica do Ibama, a carcinicultura não se adequa a essa definição pois restringe-se a uma única cultura e não se integra com cultivos agrícolas, silvícolas ou de pastoreio. O que pode acontecer a partir disso é a regulamentação de uma atividade que vem acontecendo de forma irregular, afirma Bonilha. Segundo o coordenador, 41 empresas seriam beneficiadas com a aprovação da instrução normativa. Todas autuadas pelo Ibama por ocupação irregular de área de mangue, frisa.
O presidente da Associação Norte-Riograndense dos Criadores de Camarão, Orígenes Monte, defende a inclusão da carcinicultura como atividade agrossilvipastoril vislumbrado mais proteção. Porque dentro do Código Florestal a atividade tem uma proteção maior em relação ao que está consolidado até julho de 2008, justifica.
A postura do Ibama, segundo Orígenes Monte, é radical. Essa definição foi aprovada no Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável (Cedrus) em um debate muito longo. Apenas o Ibama pensa diferente. É característica do órgão que tem uma posição radical em relação ao desenvolvimento. Eles são contra o desenvolvimento, criticou.
A legislação prevista para os manguezais no Código Florestal provocou debates acalorados em todo o país e principalmente no Nordeste. A possibilidade de ocupação de apicuns uma parte dos manguezais. Segundo o código, os produtores de camarões e de sal poderão ampliar sua atividade em até 30% no Nordeste.
Considerados como áreas de preservação permanente (APPs), os manguezais são estratégicos para a sobrevivência da população que vive no litoral e para a manutenção dos sistemas costeiros e das praias.
Tema é debatido desde julho de 2012
A instrução normativa foi apresentada na última reunião do Conema, realizada no dia 12 de março e vem sendo debatida pelo Cedrus desde julho do ano passado, afirma o presidente da Associação Norte-Riograndense dos Criadores de Camarão, Orígenes Monte.
A partir de parecer elaborado por sua equipe técnica, o Ibama pediu vistas devido ao impacto provocado por sua suposta aprovação e encaminhou a documentação para análise da Procuradoria Federal especializada junto ao Ibama.
Uma instrução normativa não pode legislar sobre o que está posto em lei federal. A liberação que se pretende é a partir de uma interpretação da lei através de uma instrução normativa. E o RN não pode ser o único estado a possuir essa exceção, justifica Luiz Eduardo Bonilha. Segundo avaliação, os pescadores seriam os primeiros prejudicados com a aprovação dessa norma, uma vez que as áreas de carcinicultura vão impedir o acesso às áreas úteis a pesca e vai ampliar um conflito que já existe por quem utiliza essas áreas, pondera Bonilha.
Polêmicas
O impacto ao meio ambiente da produção de camarão em cativeiro é alvo constante de polêmicas. Pela análise do coordenador de gabinete do Ibama, Luiz Eduardo Bonilha, é da natureza da carcinicultura desmatar a área de produção. Para o presidente da Associação Norte-Riograndense dos Criadores de Camarão, Orígenes Monte, a atividade contribui com o equilíbrio ecológico de onde está instalada.
As reclamações dos produtores em torno da falta de políticas de incentivo à atividade ficaram mais fortes a partir de 2003, quando o volume de exportações caiu e os produtores passaram a produzir para o mercado interno.
Desvalorização do dólar, impedimentos legais para entrada do camarão nacional em outros países e suspensão da linha de crédito para os criadores foram alguns dos problemas enfrentados.
Outra ameaça despertou a atenção neste ano. O Ministério da Pesca e Aquicultura planeja liberar a importação de camarão argentino. A medida é vista com maus olhos pelos carcinicultores, que tentam barrar a entrada do produto no país.
da TN
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