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“Eu contei o dinheiro do dízimo com Malafaia”: o testemunho de um evangélico descrente. Por Kiko Nogueira

dezembro 17, 2016Senador Georgino Avelino Minha Cidade

Irmãos de fé
Este post está sendo republicado.

O leitor Dênis Eduardo Serio deixou um depoimento no post sobre o silêncio dos evangélicos diante dos pastores pilantras. Dênis teve uma experiência inesquecível na igreja onde Malafaia começou e viu o ovo da serpente. Chegou a contar as moedas do dízimo. “Nos bons domingos, o valor chegava a R$ 10 mil”, diz.

Seu testemunho:

Eu era um pivete, não sabia nada da vida (e sigo sabendo pouco), nunca nem tinha beijado na boca, mas já conhecia esse indivíduo que hoje praticamente todos vocês conhecem. É isso aí: já sentei à mesa com Silas Malafaia.

O que me motivou a contar essa história foi ver cada vez mais gente ligada a ele, e que eu conheci, aparecendo na televisão falando asneiras sem tamanho. Seres que um dia para mim foram dignos de algum tipo de respeito, embora um respeito bem adolescente, mas que hoje só me causam ojeriza e pena. Como um “insider”, creio que posso ajudar a desvendar o perfil desse senhor para os colegas e amigos que hoje ficam passados com o que ouvem e veem dele.

Eu nasci em um lar evangélico e frequentei uma igreja pequena, de bairro, até mais os menos os meus 10 anos. Por volta de 1992, meu pai decidiu que precisávamos nos aprofundar nos estudos bíblicos e nos levou para uma congregação maior, a Assembleia de Deus do Bom Retiro.

Ela ainda é uma igreja-irmã da instituição presidida pelo pastor Silas Malafaia. Jabes de Alencar, pastor do Bom Retiro, é até hoje um dos principais aliados de Malafaia, se não o maior.

Com o passar do tempo no Bom Retiro, eu e minha irmã fizemos amizade com alguns membros da família Alencar, tão vasta que poderia encher uma ilha do Pacífico tranquilamente só de descendentes, com perigo de ter que entrar em guerra com o atol vizinho por mais terra habitável. Aliás, Malafaia, que chama beneficiário do Bolsa Família de vagabundo e engorda o coro desinformado de que eles têm filho para ganhar uma merreca por mês, poderia discorrer sobre o tamanho da família de Jabes, que tinha dois dígitos de irmãos ou perto disso. Seria interessante.

Malafaia sempre esteve sediado no Rio de Janeiro, mas não era difícil vê-lo nos cultos na Rua Afonso Pena. Na igreja do Bom Retiro, ele era representado por Samuel Malafaia, irmão de Silas e atual deputado estadual no Rio. Com Samuel, meu pai fez amizade por dois motivos: eles lecionavam na Escola Bíblia Dominical (sim, eu tive aula com ele) e morávamos relativamente perto. Samuel vivia na Rua Zacarias de Góes, a mesma em que Suzane von Richthofen assassinou os pais, e nós morávamos a uns 3 minutos de carro. Minha irmã tinha certa proximidade das filhas de Samuel Malafaia: lembro-me de pelo menos uma delas dançando na festa de debutante da mana em 1995.

Com o tempo, meu pai cresceu na hierarquia da igreja e passou a ser parte do corpo pastoral. Eu, como pivete inocente que era, tinha autorização para entrar com ele na sala onde o dízimo e as ofertas eram contados. Minha incumbência era calcular o montante das moedas. Para azar dos líderes, inocência não dá amnésia, então me lembro claramente que, nos bons domingos, o valor chegava a R$ 10 mil. Isso em 1994. Corrigindo-se monetariamente, chegamos ao montante aproximado de R$ 46 mil por domingo. Já naquela época havia cultos durante vários dias por semana. Não tenho condições de dizer se o valor atual é sequer próximo desse. Pode ser menos. Pode ser muito mais.

Vale um disclaimer: é mito que nas igrejas de classe média as pessoas são manipuladas facilmente por pastores. Isso acontece muito em outras denominações com foco em baixa renda (aliás, é muito curioso igreja ter foco de renda), mas nessas mais abastadas a maioria do povo oferta e dizima com o desejo genuíno de ajudar o Evangelho a ser levado a mais pessoas, embora aí sim caiba uma reflexão: qual tipo de Evangelho? Na maioria das vezes um que causa repulsa em mim.

Também é mito, claro, que todo líder rouba dinheiro. Atualmente, frequento uma igreja onde a democracia é exemplar. Pastor não é dono do microfone e as decisões econômicas são tomadas em assembleia. Não se investe dinheiro em nada de importância sem que as pessoas que contribuem sejam consultadas e aprovem o investimento por maioria absoluta. As entradas e as saídas são expostas em telão e todos têm 100% de acesso às contas.

Voltando. A certa proximidade entre as famílias levou Jabes a jantar com Samuel algumas vezes em casa. E, em um desses encontros, lá estava Silas Malafaia sentado à mesa com este que vos escreve. Não me lembro da situação, mas minha mãe afirma que foi em um encontro de pastores em São Paulo. Por motivos que até hoje desconheço em detalhes, meu pai rompeu com os líderes da igreja e saiu.

Silas sempre foi um orador magnífico. Mas mesmo defendendo algumas bandeiras de hoje já naquele tempo, lembro-me de um personagem muito diferente desse que está aí na mídia. A fala eloquente estava sempre acompanhada de certa paciência e bom humor. Talvez fosse o espesso bigode que abafava o som e dava um ar romântico-démodé ao seu discurso, mas arrisco que não. Com a autoridade de quem viu e vê, sinto-me à vontade para dizer que há algo de muito errado com esse cara.

O ambiente no Bom Retiro era carregado, pesado. O fardo não era leve como, presume-se, deveria ser em uma igreja. Intrigas eram constantes. Era uma pessoa tentando passar a perna na outra em busca de cargo e reconhecimento. Parecia até o Congresso Nacional, talvez daí a afinidade deles com alguns certos deputados que temos. Nunca foi um ambiente de paz. Nos acampamentos de juventude, havia brigas (físicas e verbais), pertences eram furtados, pessoas eram ridicularizadas. Nunca vi igreja com tão alto grau de deserção e infidelidade ministerial.

Outro personagem que conheci e que agora está metido no que há de pior na política nacional é Gilberto Nascimento Junior, conhecido como Gilbertinho. Lembrei-me muito dele no ano passado, quando Geraldo Alckmin o nomeou para a pasta que cuida dos direitos humanos no Estado, em troca de apoio político.

Membro do partido de Marco Feliciano, ele tem tanta capacidade para cuidar de direitos humanos quanto eu para programar foguetes. Dias atrás, eu comia uma pizza na mesma mesa em que me assentei à roda dos escarnecedores com Silas quando o vi na televisão, no programa do PSC, ao lado do pai. Nem me dei ao trabalho de prestar atenção no que falava, pois já sabia de antemão que dali não sairia nada de aproveitável.
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Semanas antes, o mesmo PSC levou ao ar a sua propaganda eleitoral gratuita (para quem não sabe, de gratuita ela não tem nada. Nós é que pagamos com nossos impostos). Nesse programa, o presidente do partido, veja só, elogiou a ditadura militar, disse sem pudor que ela nos salvou de sermos fuzilados por comunistas alucinados. É isso: um cristão exaltando um regime que torturou e matou centenas ou até milhares. É a igreja evangélica se afundando em um obscurantismo sem igual. Somos brothers da bancada da bala no Congresso. Ao mesmo tempo, o papa Francisco lucidamente fala o seguinte: dizer-se cristão e fabricar armas configura uma contradição. Não por acaso, a porta de saída das igrejas evangélicas começa a ficar maior que a de entrada.

Uma coisa posso garantir: nunca os direitos humanos, a igualdade social, racial ou qualquer outro tipo de pauta desse tipo esteve em discussão na igreja de Silas e Jabes. Não me lembro de uma só aula ou pregação que falasse das relações de Jesus com os pobres, que exaltasse o seu lado caridoso, assistencialista e humano. Era mais o Jesus-balada, que fazia um milagre atrás do outro e arrastava multidões. Um superstar. Um Neymar sem topete, sem gravidez indesejada e sem expulsão contra a Colômbia.

Eu estava na igreja do Bom Retiro quando Gilberto Nascimento, o pai, atual presidente estadual do PSC, lançou-se candidato a deputado estadual e foi eleito em tabelinha com Carlos Apolinário, que virou federal. Foi uma campanha que usou o púlpito para elegê-los. Não tenho nada contra pastor ter opinião política, apesar de achar que o título de pastor deveria ser retirado quando ele apoia alguém. “Silas Malafaia vota em Aécio” é muito mais justo do que “Pastor Silas Malafaia vota em Aécio”. O título pastoral, em tese, é uma vocação divina para servir a Deus, não eleger quem quer que seja. Aliás, todo esse povo engrossou o palanque de Aécio Neves no ano passado.

Púlpito nunca deveria ser usado para defender A ou B. Muito menos programa de televisão bancado por fiel. Se eles querem apoiar, que o façam por meio de seus perfis nas redes sociais, e não com o dinheiro que foi doado para pregar o cristianismo.

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